Enquanto marcas chinesas avançam com modelos híbridos e elétricos cada vez mais completos, fabricantes tradicionais tentam manter espaço entre consumidores que ainda preferem carros a combustão. É justamente nesse cenário que o novo Renault Boreal Tecno surge como uma das apostas mais importantes da marca francesa no país.
Posicionado entre as versões de entrada e topo de linha, o Boreal Tecno chega por R$ 199.900 com a missão de equilibrar preço, equipamentos e espaço interno. O problema é que alguns opcionais acabam elevando rapidamente a conta final. A pintura Vermelho Fogo custa R$ 2 mil, enquanto o teto bitom acrescenta outros R$ 2 mil.
Na prática, o utilitário acaba ultrapassando os R$ 204 mil facilmente, ficando perigosamente próximo da versão mais completa da linha. Isso cria uma situação delicada para a própria Renault, porque muitos consumidores podem preferir gastar um pouco mais e levar o modelo topo de linha com pacote mais recheado.

O Boreal faz parte de uma nova geração global da Renault, inaugurada pelo Kardian e que ainda dará origem à futura picape Niagara. Todos utilizam a plataforma RGMP, uma arquitetura inédita para a fabricante no Brasil e sem relação com modelos antigos como Duster, Sandero, Logan ou Oroch.
O visual é um dos pontos mais fortes do utilitário. A dianteira traz assinatura luminosa totalmente em LED, grade com acabamento escurecido e linhas musculosas que passam sensação de robustez. As rodas de 18 polegadas ajudam a reforçar a aparência sofisticada do modelo.
Mesmo sendo a configuração intermediária, o Boreal Tecno entrega uma lista generosa de equipamentos. O carro já sai de fábrica com pacote avançado de assistências à condução, incluindo piloto automático adaptativo, frenagem automática de emergência, monitoramento de ponto cego e assistente de permanência em faixa.
O conjunto tecnológico também chama atenção pela central multimídia de 10 polegadas integrada ao sistema do Google. O painel digital possui o mesmo tamanho e oferece diferentes modos de visualização. O espelhamento sem fio funciona de maneira rápida e prática, sem necessidade de cabos.
Por dentro, a Renault claramente buscou elevar o padrão de acabamento. O painel mistura revestimentos macios ao toque, detalhes brilhantes e partes revestidas em couro com costura aparente. O ambiente transmite sensação mais refinada do que outros modelos antigos da marca vendidos no Brasil.
Outro destaque importante está no espaço interno. O Boreal mede 4,56 metros de comprimento, possui 2,70 metros de entre-eixos e entrega cabine bastante ampla. O espaço para pernas e cabeça impressiona principalmente no banco traseiro, favorecendo viagens longas com mais conforto.

São Paulo, SP
O porta-malas é um dos maiores da categoria, com 586 litros de capacidade. O número supera rivais conhecidos como Jeep Compass e Toyota Corolla Cross. Além do amplo compartimento principal, o modelo ainda oferece divisões extras sob o assoalho e sistema prático de rebatimento dos bancos traseiros.
Apesar do espaço generoso, algumas ausências chamam atenção em um carro dessa faixa de preço. A tampa do porta-malas não possui abertura elétrica e a chave presencial continua utilizando um desenho antigo já conhecido de outros Renault vendidos anos atrás.
Debaixo do capô está o conhecido motor 1.3 turbo flex de quatro cilindros desenvolvido pela Horse em parceria com a Mercedes-Benz. No Boreal, o conjunto recebeu nova calibração para atender normas de emissões e agora entrega 163 cavalos e 27,5 kgfm de torque.
A transmissão automática de dupla embreagem com seis marchas é um dos pontos altos do carro. Diferentemente de alguns câmbios continuamente variáveis presentes em concorrentes, o sistema mantém respostas rápidas e trocas mais diretas, transmitindo sensação mais esportiva ao volante.
Na prática, o utilitário acelera de forma suave e eficiente. O motorista quase sempre encontra a marcha correta nas retomadas e ultrapassagens, algo que melhora bastante a dirigibilidade no uso urbano e rodoviário. Mesmo sem eletrificação, o conjunto mecânico consegue entregar desempenho equilibrado.
O Boreal oferece ainda diferentes modos de condução, incluindo Eco, Comfort, Sport e Personalizado. Cada configuração altera parâmetros de direção, respostas do acelerador e comportamento do câmbio, permitindo adaptar o carro para diferentes estilos de condução.
A suspensão também demonstra evolução em relação aos antigos Renault nacionais. O acerto privilegia conforto e absorve bem irregularidades do asfalto, principalmente em trajetos urbanos. Ainda assim, existe uma crítica importante envolvendo a suspensão traseira por eixo de torção.
Em um segmento onde vários concorrentes já adotam suspensão independente traseira, o Boreal utiliza uma solução mais simples. Embora o ajuste seja competente no dia a dia, parte do público pode considerar a escolha inadequada para um utilitário que ultrapassa os R$ 200 mil.
No consumo, os números apresentados pela Renault são razoáveis para um SUV médio totalmente a combustão. Segundo a fabricante, o modelo faz até 11,2 km/l na cidade e 13,6 km/l na estrada com gasolina. Em uso urbano real, o consumo ficou próximo de 12 km/l.

São Paulo, SP
Mesmo sem qualquer sistema híbrido, o Boreal ainda aposta em consumidores que preferem veículos tradicionais. Isso acontece porque muitos motoristas ainda demonstram resistência aos modelos eletrificados, seja pelo custo, infraestrutura de recarga ou dúvidas sobre manutenção futura.
O grande problema é que o mercado mudou rapidamente. Hoje já existem utilitários híbridos plug-in na mesma faixa de preço, oferecendo mais potência, maior eficiência energética e listas de equipamentos igualmente completas. Isso coloca pressão enorme sobre modelos exclusivamente a combustão.
A própria Renault reconhece essa mudança e já trabalha em uma futura versão híbrida leve do Boreal. O sistema deve utilizar o mesmo motor 1.3 turbo associado a algum nível de eletrificação, embora ainda sem previsão oficial detalhada para o mercado brasileiro.
Mesmo assim, o Boreal Tecno consegue reunir qualidades importantes. O espaço interno amplo, o porta-malas gigantesco, o bom nível de conforto e a dirigibilidade refinada fazem do modelo uma opção interessante para famílias que procuram um SUV médio tradicional e bem equipado.
A discussão principal acaba girando em torno do preço. Quando equipado com pintura especial e teto bitom, o Boreal Tecno encosta rapidamente no valor da versão topo de linha. Nesse cenário, muitos consumidores podem concluir que vale mais a pena investir um pouco além e levar o modelo mais completo da gama.











