Com os carros cada vez mais caros, modelos que antes seriam vistos como simples passaram a disputar espaço oferecendo o máximo possível de espaço interno, motor turbo e sete lugares sem ultrapassar faixas ainda consideradas “acessíveis”. É exatamente nesse cenário que o Citroën Aircross 2026 tenta se reposicionar.
A Citroën percebeu cedo que o antigo C3 Aircross não conseguiu atingir o impacto esperado no Brasil. Apesar da proposta racional e do amplo espaço interno, o modelo carregava um visual simples demais para um segmento em que aparência, acabamento e sensação de qualidade pesam muito na decisão de compra do consumidor.
Por isso, a linha 2026 passou por mudanças pontuais. O carro deixou oficialmente de se chamar C3 Aircross e agora adota apenas o nome Aircross. A alteração parece simples, mas mostra uma tentativa clara da marca de reposicionar o utilitário esportivo dentro da própria linha da Citroën.

São José dos Campos, SP
A reorganização das versões também deixa isso evidente. Agora a gama ficou mais enxuta e praticamente toda focada nos modelos de sete lugares. Apenas a versão de entrada mantém a configuração com cinco assentos, enquanto Shine e XTR seguem exclusivamente com a terceira fileira instalada de fábrica.
Na prática, isso muda até os rivais diretos do modelo. O Aircross deixou de mirar SUVs compactos tradicionais e passou a olhar mais diretamente para veículos familiares voltados ao transporte de passageiros, especialmente modelos como a Chevrolet Spin, apostando no espaço interno como principal argumento de venda.
Mesmo com as mudanças, a essência do projeto continua exatamente a mesma. O Aircross segue utilizando a plataforma CMP do grupo Stellantis, estrutura que também aparece em modelos como Peugeot 208 e servirá de base para futuros carros nacionais da Fiat e da Jeep nos próximos anos.
O problema é que a simplicidade estrutural ainda aparece em pontos importantes. O pacote de segurança continua bastante limitado para a categoria. O modelo oferece apenas os airbags obrigatórios por lei e airbags laterais dianteiros, deixando de lado itens mais completos presentes em vários concorrentes.
Essa limitação acabou refletindo diretamente nos testes de segurança do Latin NCAP. O Aircross recebeu zero estrela nos ensaios realizados no fim de 2024, sendo criticado especialmente na proteção em impactos frontais, laterais e também no comportamento dos bancos dianteiros contra efeito chicote.
A iluminação também mostra que o projeto ainda trabalha com forte controle de custos. Enquanto versões indianas possuem faróis mais sofisticados em LED com projetores, o modelo brasileiro continua usando conjunto halógeno simples, algo que compromete bastante a eficiência da iluminação noturna em estrada.
Debaixo do capô, porém, existe um dos pontos mais fortes do carro. O motor T200 segue sendo um conjunto moderno e eficiente. O propulsor 1.0 turbo de três cilindros entrega até 130 cavalos com etanol e torque de 20,4 kgfm, trabalhando sempre com câmbio automático CVT de sete marchas simuladas.
O conjunto ainda chama atenção pela engenharia refinada. O motor utiliza corrente metálica no sincronismo e o sistema MultiAir 3, tecnologia que substitui parte do comando tradicional de válvulas por acionamentos eletro-hidráulicos individuais, melhorando consumo, desempenho e respostas em baixa rotação.
A ausência do sistema híbrido leve, já utilizado em outros carros da Stellantis, ainda é sentida. Embora o ganho de consumo não seja gigantesco, o conjunto poderia trazer vantagens tributárias em alguns estados e até benefícios urbanos, como isenção de rodízio em cidades específicas.
Na versão XTR, a Citroën tentou criar uma identidade mais aventureira para o Aircross. O visual recebe detalhes exclusivos, adesivos, rodas diferenciadas, acabamentos escurecidos e pneus de uso misto, embora suspensão, freios e estrutura permaneçam exatamente iguais às demais versões da linha.
Os novos pneus acabam sendo uma das mudanças mais interessantes do conjunto. O desenho mais agressivo melhora a capacidade em pisos ruins sem prejudicar o conforto ou aumentar ruídos no asfalto. Mesmo em velocidade urbana, o Aircross mantém rodagem suave e bastante confortável.
As dimensões continuam sendo um dos maiores trunfos do modelo. São 4,32 metros de comprimento e entre-eixos de 2,67 metros, medidas que ajudam a entregar um espaço interno raro nessa faixa de preço. O vão livre elevado também reforça a sensação de robustez no uso diário.

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Por dentro, a Citroën trabalhou em pequenas melhorias para reduzir críticas antigas. O painel agora recebe partes revestidas em material macio com acabamento em vinil, as portas ganharam novos comandos de vidros e alguns detalhes da versão XTR adicionam costuras e elementos exclusivos.
Ainda assim, a sensação geral permanece bastante simples. Os plásticos duros continuam dominando o interior e vários comandos lembram modelos de entrada. O Aircross claramente prioriza funcionalidade e espaço interno acima de refinamento visual ou sensação premium ao toque.
Os equipamentos também evoluíram parcialmente. O ar-condicionado automático agora é de série e a chave tipo canivete substitui soluções antigas, mas o modelo ainda deixa faltar itens considerados básicos atualmente, como chave presencial, sensor de chuva, farol automático e retrovisor eletrocrômico.
A ergonomia também exige adaptação. A posição de dirigir é muito alta, o volante possui regulagem apenas de altura e alguns comandos ficam escondidos dependendo da posição escolhida pelo motorista. Até pequenos detalhes, como a ausência de temporizador dos vidros, mostram o foco extremo em simplificação.
As telas cumprem bem a proposta. A central multimídia de 10 polegadas possui Android Auto e Apple CarPlay sem fio, enquanto o painel digital de 7 polegadas entrega informações objetivas e de leitura simples. O sistema funciona de forma correta, embora sem grande sofisticação gráfica.
Na segunda fileira, o Aircross mostra por que o espaço é sua principal virtude. O banco acomoda três adultos com relativa facilidade, existe amplo espaço para pernas e cabeça, além de entradas USB-C e um assoalho razoavelmente amigável para viagens em família.
Já a terceira fileira funciona mais como solução emergencial. Crianças conseguem viajar ali com algum conforto em trajetos curtos, mas adultos enfrentam pouco espaço para pernas e pés. Ainda assim, a modularidade dos bancos ajuda bastante no uso cotidiano do carro.
Os dois assentos traseiros podem ser removidos individualmente com facilidade, já que cada banco pesa cerca de oito quilos. Isso permite transformar rapidamente o Aircross em um utilitário com grande porta-malas, algo bastante útil para famílias que não usam sete lugares o tempo inteiro.
No compartimento de carga, o espaço muda completamente dependendo da configuração escolhida. Com sete ocupantes, praticamente não sobra área útil para bagagens. Já com os bancos removidos, o Aircross alcança quase 500 litros de capacidade, tornando-se bastante versátil no uso diário.
Ao volante, o comportamento reforça a proposta familiar e confortável. A direção extremamente leve facilita manobras urbanas e a suspensão privilegia suavidade acima de esportividade. O Aircross roda de maneira relaxada, absorvendo bem irregularidades e transmitindo uma condução tranquila para cidade e estrada.











