A BYD deu um dos passos mais ambiciosos de sua estratégia internacional ao lançar oficialmente o Racco no Japão, modelo desenvolvido exclusivamente para disputar espaço no segmento de kei cars, categoria que responde por quase 40% das vendas de veículos novos no país. A decisão coloca a fabricante chinesa frente a frente com marcas que historicamente dominam esse mercado, como Toyota, Honda, Nissan, Suzuki e Daihatsu, em um dos ambientes mais competitivos da indústria automotiva mundial.
Diferentemente de outras ofensivas internacionais da empresa, o Racco não é uma adaptação de um veículo vendido na China. O projeto foi concebido desde o início para atender às rígidas regras japonesas que definem um kei car, incluindo dimensões máximas de 3,40 metros de comprimento e 1,48 metro de largura. O hatch mede 3,395 m de comprimento, 1,475 m de largura, 1,80 m de altura e possui entre-eixos de 2,52 metros, combinação que privilegia espaço interno sem sair dos limites da legislação local.
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O lançamento também representa uma mudança de estratégia da BYD no Japão. Desde que iniciou as operações no país, em 2023, a marca concentrava sua atuação em veículos elétricos de maior porte. Agora, passa a disputar justamente o segmento que serve como porta de entrada para milhões de consumidores japoneses e que concentra o maior volume de vendas do mercado nacional.
Autonomia superior e preço competitivo são as principais apostas
O Racco será vendido em três versões: 200, 300 Plus e 300 Premium. A configuração de entrada utiliza uma bateria Blade de fosfato de ferro-lítio (LFP) de 22,4 kWh, suficiente para oferecer autonomia de até 210 quilômetros no ciclo japonês WLTC. Já as versões superiores recebem um conjunto de 35,84 kWh, elevando o alcance para até 320 quilômetros.

Esse número chama atenção porque faz do Racco o primeiro kei car elétrico comercializado no Japão a superar os 300 km de autonomia pelo ciclo WLTC. A versão topo de linha utiliza um motor elétrico de 64 cv e 160 Nm de torque, enquanto a configuração básica entrega 27 cv e 110 Nm, desempenho adequado à proposta urbana da categoria.
Os preços começam em 2,145 milhões de ienes, cerca de R$ 67 mil em conversão direta. Com o subsídio nacional de 150 mil ienes destinado aos veículos elétricos, o valor final da versão de entrada fica abaixo de 2 milhões de ienes. As versões 300 Plus e 300 Premium custam 2,398 milhões e 2,497 milhões de ienes, respectivamente.
Na prática, a estratégia coloca o modelo em posição competitiva diante dos principais rivais. O Nissan Sakura, atual elétrico mais vendido do Japão, parte de aproximadamente 2,44 milhões de ienes e oferece autonomia de 180 km. Já o Honda N-ONE e: custa cerca de 2,7 milhões de ienes.
Equipamentos reforçam estratégia para conquistar consumidores japoneses
Além da autonomia, a BYD aposta em uma lista de equipamentos incomum para o segmento. O Racco oferece central multimídia de 10,1 polegadas, assistentes de condução de nível 2, função V2L para alimentar equipamentos externos, chave digital com tecnologia NFC, pré-condicionamento da bateria, bancos e volante aquecidos e seis airbags. Dependendo da versão, há ainda porta lateral deslizante elétrica com acionamento por sensor de movimento dos pés, recurso raro entre os kei cars.
Outro destaque é a versatilidade da cabine. Com os bancos traseiros rebatidos, o compartimento de carga pode atingir até 1.372 litros, característica importante para um público que utiliza esses veículos tanto em grandes centros urbanos quanto em regiões rurais.

O lançamento acontece em um momento de expansão da rede da BYD no Japão. A empresa informou que deverá alcançar 10 mil veículos entregues no país até o fim deste mês e já conta com 77 pontos de venda, incluindo 56 concessionárias oficiais. A fabricante também pretende abrir pequenas lojas em cidades do interior para ampliar sua presença justamente onde os kei cars possuem maior participação nas vendas.
Embora os veículos elétricos ainda representem uma parcela relativamente pequena do mercado japonês, a chegada do Racco mostra que a BYD pretende disputar espaço além dos segmentos tradicionais de elétricos. Com preço competitivo, autonomia acima da média e um projeto desenvolvido especificamente para o consumidor japonês, a fabricante chinesa desafia o domínio histórico das montadoras locais em uma categoria considerada estratégica para o futuro da mobilidade no país.











