Em meio à chegada acelerada de marcas chinesas, o Geely EX2 apareceu como uma tentativa de disputar espaço entre os modelos compactos eletrificados mais acessíveis do país. Ainda assim, por trás do preço competitivo e do visual moderno, existem pontos importantes que podem transformar a compra em uma dor de cabeça no médio prazo.
A Geely tenta usar o peso internacional do grupo, que também controla marcas como Volvo e Lotus, para ganhar credibilidade no Brasil. O problema é que reputação global nem sempre significa estrutura sólida no mercado nacional. O histórico da fabricante no país ainda é cercado de desconfiança, principalmente pela dificuldade em consolidar vendas e pós-venda.
O EX2 chega para enfrentar modelos já estabelecidos, principalmente o BYD Dolphin Mini, que rapidamente se tornou referência entre os elétricos compactos. A missão da Geely não é simples porque a concorrência chinesa já se movimenta com mais agressividade, melhor rede de concessionárias e garantias mais amplas.

Entre os primeiros detalhes que chamam atenção negativamente está a ausência de estepe. O EX2 não oferece nem mesmo um estepe temporário, daqueles mais finos usados apenas em emergências. Em um país com asfalto irregular, buracos e estradas precárias, isso pode gerar transtornos sérios para quem depende do carro diariamente.
Na prática, um simples rasgo no pneu pode obrigar o motorista a acionar guincho imediatamente. Como muitos elétricos têm pouco espaço interno para acomodar um pneu sobressalente, o consumidor acaba ficando totalmente dependente de assistência externa, algo que pesa ainda mais em viagens longas.
Outro ponto criticado é a diferença entre as versões PRO e MAX. A variante de entrada custa cerca de R$ 120 mil, mas entrega um pacote considerado simples demais para a faixa de preço. Faltam equipamentos importantes de assistência à condução e itens tecnológicos que já aparecem em concorrentes diretos.
A situação fica ainda mais curiosa porque a versão PRO utiliza calotas em vez de rodas de liga leve. O detalhe virou alvo de críticas justamente porque os carros chineses ficaram conhecidos no Brasil por oferecer muito equipamento e acabamento acima da média. Nesse caso, a percepção é de economia excessiva em um veículo caro.
A autonomia também preocupa. Segundo dados do Inmetro, o EX2 roda cerca de 289 quilômetros com carga completa. Embora o número possa parecer aceitável em uso urbano leve, a realidade costuma ser menos favorável quando o carro enfrenta trânsito intenso, ar-condicionado constante ou rodovias.
Em velocidades acima de 80 km/h, a perda de carga em elétricos costuma aumentar rapidamente. Em subidas, serras e trajetos rodoviários mais longos, o consumo da bateria cresce ainda mais. Isso significa que muitos motoristas precisarão planejar recargas frequentes para evitar imprevistos.
Para quem trabalha com aplicativos ou utiliza o veículo como único carro da família, essa limitação pode virar um problema diário. Além da autonomia reduzida, o Brasil ainda possui uma rede de carregamento considerada insuficiente fora dos grandes centros urbanos, especialmente em regiões do interior.
O pós-venda é outro ponto tratado como preocupação central. A Geely ainda está em fase inicial de estruturação no Brasil e isso afeta diretamente disponibilidade de peças, logística e treinamento técnico. Em marcas recém-chegadas, esse período de adaptação normalmente traz filas maiores e manutenção mais lenta.
Muitos consumidores acabam comprando no entusiasmo do lançamento e depois descobrem dificuldades para encontrar reparos rápidos. A realidade do mercado mostra que montar uma rede eficiente de concessionárias e assistência técnica leva tempo, principalmente quando falamos de carros eletrificados.
Existe também a questão da reparabilidade. Embora carros elétricos tenham menos componentes mecânicos tradicionais, eles dependem de mão de obra extremamente especializada. Fora das concessionárias autorizadas, ainda são poucas as oficinas realmente preparadas para lidar com baterias de alta tensão e sistemas eletrônicos complexos.
Isso cria uma dependência quase total da fabricante. Mesmo após o término da garantia, o proprietário continua preso à rede autorizada para boa parte dos reparos. Dependendo da evolução da marca no país, isso pode elevar custos e dificultar futuras manutenções.
Especialistas do setor recomendam cautela justamente por esse motivo. Em vez de correr para comprar nos primeiros meses de lançamento, muitos consumidores preferem esperar de oito meses a um ano para entender como será o comportamento do carro, da assistência e do mercado de usados.
O maior debate, porém, envolve a garantia oferecida pela Geely. A cobertura da bateria é de oito anos ou 150 mil quilômetros, enquanto a garantia geral do veículo é de seis anos ou 150 mil quilômetros. Apesar de parecer razoável, o pacote fica atrás de concorrentes chinesas que oferecem condições mais amplas.

O problema aumenta quando o consumidor analisa as limitações da cobertura. Diversos componentes possuem garantia reduzida para apenas três anos ou 60 mil quilômetros. A lista inclui amortecedores, sensores, central multimídia, câmera, peças de suspensão, fechaduras, motores elétricos auxiliares e até itens de acabamento.
Na prática, isso reduz bastante a sensação de segurança no médio prazo. Um motorista brasileiro que rode cerca de 15 mil quilômetros por ano alcançará quase um terço da garantia total em apenas três anos. No mercado de seminovos, isso pode afetar diretamente a revenda e derrubar o valor do veículo.
O Geely EX2 chega ao Brasil tentando ocupar espaço em um segmento que cresce rapidamente, mas ainda enfrenta dúvidas importantes sobre estrutura, suporte e durabilidade. O modelo até chama atenção pelo visual moderno e pela proposta urbana, porém a combinação entre autonomia limitada, pós-venda indefinido e garantias restritas faz muita gente enxergar o carro mais como aposta do que como escolha segura neste momento.











