A ideia de instalar energia solar para carregar um carro elétrico parece simples: calcular o consumo do veículo, instalar painéis suficientes e reduzir a energia comprada da distribuidora. Na prática, porém, o dimensionamento depende de quanto o carro realmente roda, da geração solar disponível no endereço e das perdas do sistema.
Usando como referência um BYD Dolphin com bateria de 45,1 kWh, capacidade informada pela BYD Brasil, é possível estimar quanto um sistema fotovoltaico precisaria produzir em um cenário de utilização intensa.
O primeiro cálculo não deve ser o número de painéis
Antes de pensar no telhado, é preciso descobrir quanta energia o carro realmente consumirá.
Uma bateria de 45,1 kWh exige mais energia da instalação elétrica do que aquela efetivamente armazenada, porque existem perdas durante a conversão e o processo de recarga.
Adotando, apenas para esta simulação, eficiência global de 85% durante a recarga, seriam necessários aproximadamente 53,1 kWh retirados da instalação elétrica para entregar 45,1 kWh à bateria.
A conta é:
45,1 kWh ÷ 0,85 = aproximadamente 53,1 kWh.
Esse é um cenário extremo. Fazer uma carga equivalente a 0%–100% todos os dias significaria consumir perto de 1.593 kWh por mês somente com o automóvel.
Para a maioria dos proprietários, portanto, dimensionar o sistema dessa maneira provavelmente resultaria em uma instalação maior do que a necessária.

Quantos painéis seriam necessários?
Para criar um exemplo comparável, vamos considerar módulos de 620 W, média diária equivalente a 5,3 horas de sol pleno e um fator de desempenho de 80% para representar as perdas do sistema fotovoltaico.
Os 5,3 kWh/m² por dia utilizados nesta simulação são uma premissa regional, e não uma média que deva ser aplicada automaticamente a qualquer endereço no Brasil. A disponibilidade de radiação solar varia conforme a localização e pode ser consultada em bases como o CRESESB — potencial solar por localidade.
Nas condições adotadas para o exemplo, cada módulo produziria:
0,620 kW × 5,3 × 0,80 = aproximadamente 2,63 kWh por dia.
Dividindo os 53,1 kWh necessários pela geração estimada de cada módulo, chegamos a aproximadamente 20 painéis de 620 W.
O sistema teria potência instalada de 12,4 kWp.
Isso não significa que todo proprietário de Dolphin precise instalar 20 placas. O resultado vale exclusivamente para as premissas utilizadas nesta simulação.
O uso diário muda completamente a conta
Imagine agora que o motorista não consuma uma bateria inteira por dia.
Se utilizar o equivalente a metade da capacidade diariamente, a demanda energética destinada ao carro também cairá aproximadamente pela metade. Consequentemente, a parcela do sistema solar necessária para compensar esse consumo será muito menor.
Uma maneira mais adequada de dimensionar o projeto é levantar a quilometragem mensal, estimar o consumo do veículo em kWh e acrescentar as perdas relacionadas à recarga.
Quem roda 1.000 km por mês terá uma necessidade muito diferente de quem percorre 4.000 ou 5.000 km.
Energia solar não significa carregar diretamente do painel
Esse é outro ponto importante.
Em uma instalação fotovoltaica convencional conectada à rede, não é necessário que os painéis estejam produzindo exatamente no momento em que o carro está conectado ao carregador.
A geração e o consumo seguem as regras brasileiras aplicáveis à micro e minigeração distribuída e ao Sistema de Compensação de Energia Elétrica. A ANEEL explica as regras da micro e minigeração distribuída e as condições aplicáveis aos consumidores.
Assim, uma residência pode gerar energia durante o período de incidência solar e ter consumo em outros momentos, conforme as regras de medição, injeção e compensação aplicáveis à unidade consumidora.
Isso é diferente de uma instalação isolada com baterias estacionárias, que exige outro dimensionamento e pode elevar bastante o investimento.
Microinversor não deve ser escolhido apenas pelo número de módulos
Também não é correto definir a quantidade de microinversores apenas dividindo o número de módulos.
A quantidade e a potência dos inversores ou microinversores dependem das características elétricas dos módulos, potência do sistema, tensão, corrente, orientação do telhado e especificações dos equipamentos.
Em algumas instalações, um inversor string pode ser mais apropriado; em outras, microinversores oferecem vantagens, especialmente quando existem diferentes orientações ou condições de sombreamento.
Esse dimensionamento deve fazer parte do projeto elétrico.
Quanto custaria instalar?
Também é melhor evitar transformar preços unitários de painéis e inversores em um valor nacional definitivo.
O orçamento envolve módulos, inversor ou microinversores, estruturas, proteções elétricas, cabeamento, projeto, instalação e procedimentos necessários para conexão à rede.
Além disso, os preços dos equipamentos fotovoltaicos mudam ao longo do tempo e variam conforme região, potência instalada e características do imóvel.
Assim, os R$ 36,5 mil utilizados como referência na simulação devem ser entendidos apenas como uma estimativa, e não como o preço obrigatório de uma instalação de 12,4 kWp.
E o retorno em pouco mais de dois anos?
Esse é justamente o cálculo que exige maior cuidado.
Não é possível determinar o prazo de retorno apenas conhecendo o preço do sistema e a capacidade da bateria do carro. É necessário considerar tarifa de energia, impostos, regras de compensação, geração efetiva da instalação, degradação dos módulos, consumo simultâneo e perfil de utilização.
Por isso, afirmar que o investimento necessariamente se paga em dois anos e três meses seria excessivamente preciso.
O retorno precisa ser calculado individualmente para cada instalação.
Vale instalar energia solar pensando no carro elétrico?
Pode valer bastante, principalmente para quem percorre muitos quilômetros e já possui uma residência adequada à instalação fotovoltaica.
Mas o melhor projeto não é necessariamente aquele capaz de produzir energia suficiente para carregar uma bateria inteira todos os dias.
O dimensionamento mais racional começa pelo consumo real do automóvel e da residência. A partir daí, área disponível, irradiação solar, potência dos módulos e características elétricas determinam o tamanho da instalação.
No cenário extremo utilizado nesta simulação, uma demanda de aproximadamente 53,1 kWh por dia poderia exigir cerca de 20 módulos de 620 W, considerando as premissas adotadas. Para um motorista que utiliza apenas uma fração dessa energia diariamente, a necessidade será consideravelmente menor.
É justamente essa diferença que transforma a pergunta de “quantas placas carregam um carro elétrico?” em outra muito mais útil: quantos quilômetros você precisa repor todos os meses?
