O Brasil vive hoje uma fase dominada pelos utilitários esportivos eletrificados, mas poucas marcas carregam uma história tão ligada ao fora de estrada quanto a Suzuki. Depois de rumores sobre uma possível saída do país, a fabricante japonesa reaparece apostando justamente no nome mais tradicional da sua trajetória: o Vitara. Só que agora em uma proposta totalmente diferente, elétrica, mais tecnológica e com a missão de recuperar relevância em um segmento cada vez mais competitivo.
A história do Vitara no Brasil começou ainda em 1991, período em que a abertura das importações transformou o mercado nacional. Enquanto o consumidor brasileiro conhecia basicamente modelos simples e utilitários rústicos, a Suzuki trouxe um compacto com tração nas quatro rodas, proposta urbana e capacidade real para trilhas. Era um conceito praticamente inexistente no país antes da popularização dos utilitários esportivos.
Naquela época, o Vitara ficou conhecido pela robustez, tamanho compacto e confiabilidade mecânica. Primeiro apareceu com duas portas e motor 1.6, depois ganhou versões mais sofisticadas e até opção quatro portas. O modelo rapidamente conquistou espaço entre consumidores que buscavam um veículo capaz de enfrentar barro, estradas ruins e também o trânsito das cidades sem o desconforto típico dos jipes antigos.

A segunda geração ampliou ainda mais essa proposta e ficou marcada por dar origem ao primeiro Chevrolet Tracker vendido no Brasil, que na prática era um Suzuki Grand Vitara com outro emblema. O modelo manteve a fama de resistente e chegou até com motor diesel, mas a forte carga tributária sobre importados e a valorização da indústria nacional fizeram a Suzuki praticamente desaparecer do mercado brasileiro entre 2003 e 2008.
O retorno aconteceu no fim daquela década, quando o Grand Vitara voltou atualizado e mais refinado. Mais tarde, a marca ainda ganhou força produzindo o Jimny nacionalmente em parceria com a Mitsubishi. O pequeno jipe virou referência entre fãs do fora de estrada, mas acabou barrado no Brasil por não atender às novas exigências do Proconve L8, que passou a exigir sistemas mais avançados de controle de emissões evaporativas.
Mesmo com o fim do Jimny Sierra importado, a Suzuki não abandonou o país. A marca manteve sua rede de concessionárias e decidiu mudar completamente a estratégia. O novo E-Vitara chega importado da Índia e representa uma virada importante para a fabricante, que agora aposta em eletrificação total para sobreviver em um mercado tomado por chineses, marcas premium e novos utilitários esportivos compactos.
O novo modelo utiliza uma plataforma desenvolvida especificamente para carros elétricos, com baterias posicionadas no assoalho para reduzir o centro de gravidade e melhorar estabilidade. A estrutura também recebeu reforços para uso fora de estrada, preservando parte da identidade tradicional da Suzuki. O projeto teve colaboração da Toyota e deu origem também ao Urban Cruiser elétrico vendido em outros mercados.
Visualmente, o novo E-Vitara abandona as linhas quadradas clássicas das primeiras gerações e adota um desenho mais moderno, musculoso e aerodinâmico. Ainda assim, tenta preservar certa aparência robusta, especialmente nos para-choques sem pintura sofisticada e na postura elevada. Alguns detalhes lembram rivais atuais, principalmente o Nissan Kicks, enquanto a versão da Toyota aposta em um estilo mais refinado.
O SUV mede 1,80 metro de largura e impressiona pelo entre-eixos de 2,70 metros, o maior já usado em um Vitara. Isso permitiu ampliar o espaço interno, embora as baterias ocupem bastante área sob o assoalho. A Suzuki escolheu utilizar células de lítio-ferro-fosfato, tecnologia considerada mais resistente e segura contra impactos, característica importante para um veículo pensado também para aventuras fora do asfalto.
A mecânica utiliza dois motores elétricos e tração integral permanente. O conjunto entrega 184 cavalos e mais de 31 kgfm de torque, números suficientes para levar o SUV de 0 a 100 km/h em cerca de 7,6 segundos. Mesmo pesando quase 1.900 quilos, o eVitara surpreende pela agilidade e pela forma como consegue esconder o excesso de peso durante a condução.
Outro destaque está na suspensão reforçada e na preparação para terrenos ruins. Apesar de não ser um utilitário extremo como antigos modelos da marca, o eVitara mantém altura elevada do solo, proteção inferior das baterias e componentes específicos para suportar trilhas leves. Durante testes em trechos de terra e lama, o SUV mostrou comportamento sólido e bem acima da média dos elétricos compactos vendidos atualmente.
No carregamento, o modelo aceita até 150 kW em corrente contínua, permitindo recuperar grande parte da bateria em pouco mais de vinte minutos em carregadores rápidos. A autonomia oficial, porém, decepciona um pouco: são cerca de 293 quilômetros segundo o Inmetro. Em uso urbano, os números podem melhorar bastante graças à regeneração de energia, mas na estrada o alcance cai perceptivelmente.

O interior entrega bom espaço, teto panorâmico e central multimídia moderna, mas ainda conserva características típicas da Suzuki, especialmente o acabamento simples com muito plástico rígido. O porta-malas também virou motivo de crítica, oferecendo apenas 310 litros na configuração convencional e capacidade ainda menor dependendo do ajuste dos bancos traseiros.
Vendendo o novo E-Vitara por aproximadamente R$ 260 mil no lançamento, a Suzuki entra em uma faixa dominada por concorrentes fortes como Volvo EX30, BYD Dolphin Plus, BMW iX1 e o novo Kia EV3. Mesmo sem o refinamento de alguns rivais, o modelo tenta se diferenciar justamente pela proposta menos “pasteurizada”, combinando desempenho, tração integral e uma herança fora de estrada que poucos elétricos modernos conseguem oferecer.











