A estreia da Ferrari no universo dos carros totalmente elétricos já nasceu cercada de controvérsia, curiosidade e expectativa. O inédito Ferrari Luce rompe décadas de tradição em Maranello ao abandonar o motor a combustão e apostar em uma proposta radical, tanto no visual quanto na engenharia. Antes mesmo de chegar às ruas, o modelo já dividia opiniões entre apaixonados pela marca e admiradores da nova era elétrica.
Apresentado oficialmente pela Ferrari nesta segunda-feira, 25 de maio, o Luce é o primeiro automóvel 100% elétrico da fabricante italiana e passa a integrar a linha regular da marca, sem ser uma edição limitada. O nome significa “luz” em italiano e simboliza uma nova fase da empresa, que levou cerca de cinco anos para desenvolver o projeto.
O modelo também representa uma ruptura estética sem precedentes na história da Ferrari. O desenho mistura superfícies retas, soluções aerodinâmicas incomuns e uma carroceria com perfil futurista que se distancia completamente dos esportivos clássicos da marca. Há quem compare o carro a conceitos asiáticos modernos, enquanto outros enxergam uma revolução necessária para o futuro da fabricante.

A dianteira traz faróis integrados a grandes entradas de ar e um conjunto visual pesado por contrastes em preto na carroceria. Já a traseira tenta preservar parte da identidade tradicional da Ferrari ao adotar lanternas redondas duplas inspiradas nos modelos da década de 1990. Mesmo assim, o resultado visual provocou forte repercussão nas redes sociais, alternando elogios apaixonados e críticas severas.
O projeto nasceu da colaboração entre o Centro Stile Ferrari e a LoveFrom, empresa criada por Jony Ive, ex-chefe de design da Apple. A proposta era construir um carro funcionalmente moldado pela engenharia e “vestido” pelo design industrial contemporâneo. Segundo a Ferrari, cada superfície do carro foi desenhada primeiro para melhorar a eficiência aerodinâmica antes de ganhar acabamento visual.
As dimensões impressionam. O Luce mede 5,02 metros de comprimento, quase 2 metros de largura e 1,54 metro de altura, ficando ligeiramente mais baixo que o Purosangue. Pela primeira vez na história da Ferrari, um modelo oferece cinco lugares reais graças à ausência do túnel central de transmissão, além de um porta-malas com 597 litros de capacidade.
O interior aposta em uma mistura incomum entre minimalismo moderno e referências clássicas da marca. O volante revestido em couro recebe detalhes metálicos inspirados nos anos 1990, enquanto o painel digital tenta reproduzir visualmente antigos instrumentos analógicos. A central multimídia pode ser inclinada para motorista ou passageiro, mas a Ferrari evitou exagerar na quantidade de telas espalhadas pela cabine.
A qualidade de acabamento é tratada pela marca como um dos maiores diferenciais do projeto. Alumínio, couro, vidro e elementos estruturais foram trabalhados com atenção quase artesanal. Até os comandos físicos do ar-condicionado permanecem presentes, enquanto as portas traseiras com abertura invertida lembram soluções já utilizadas no Purosangue.
Debaixo da carroceria está uma plataforma inédita com arquitetura elétrica de 800 volts e quatro motores independentes, um em cada roda. O conjunto entrega até 1.050 cavalos de potência e 100,9 kgfm de torque no modo Launch Control. Segundo a Ferrari, boa parte da tecnologia utilizada deriva diretamente da experiência acumulada pela marca na Fórula 1 e no Mundial de Endurance.
O desempenho coloca o Luce entre os modelos mais rápidos já produzidos pela fabricante italiana. O SUV elétrico acelera de 0 a 100 km/h em apenas 2,5 segundos e chega aos 200 km/h em 6,8 segundos, antes de atingir velocidade máxima de 310 km/h. Os motores dianteiros giram até 30 mil rotações por minuto, enquanto os traseiros alcançam 25.500 rpm.
A bateria de 122 kWh utiliza 210 células desenvolvidas em parceria com a sul-coreana SK On e foi integrada estruturalmente ao chassi para reduzir o centro de gravidade do veículo. A autonomia estimada chega a 530 quilômetros, enquanto a recarga rápida suporta potência de até 350 kW. A Ferrari ainda promete garantia de oito anos sem limite de quilometragem para o conjunto elétrico.
Um dos recursos mais curiosos do Luce está nas borboletas atrás do volante. Em vez de trocar marchas, elas controlam níveis de regeneração de frenagem e intensidade da entrega de torque. A Ferrari chama o sistema de Torque Shift Engagement, tecnologia criada para alterar completamente o comportamento dinâmico do carro em curvas, retomadas e acelerações.
Mesmo diante da resistência de parte dos fãs mais tradicionais, a Ferrari aposta que o Luce inaugura uma nova etapa para a marca sem abandonar seus pilares históricos. A fabricante continuará produzindo carros híbridos e modelos a combustão, mas deixa claro que a eletrificação agora faz parte de sua identidade. Com preços partindo de 550 mil euros — cerca de R$ 3,2 milhões — o Luce não tenta agradar a todos. Seu objetivo parece ser outro: redefinir o que uma Ferrari pode ser no futuro.











