Renault encerra Kwid E-Tech e deixa mercado livre para o Geely EX2 crescer
Foto: Renault/Divulgação

A saída do Renault Kwid E-Tech do mercado brasileiro marca o fim de uma das experiências mais ousadas da marca francesa no país. Lançado em 2022 como o elétrico mais barato do Brasil, o compacto tentou popularizar a eletrificação em uma faixa de preço inédita, mas acabou perdendo força diante da chegada de concorrentes chineses mais modernos, espaçosos e competitivos. Agora, a Renault reorganiza sua estratégia para abrir espaço à nova parceria com a Geely.

O modelo já vinha desaparecendo gradualmente das concessionárias nas últimas semanas, enquanto rumores sobre o encerramento das importações ganhavam força. A confirmação ficou ainda mais evidente quando o Kwid E-Tech deixou de aparecer no configurador oficial da Renault no Brasil, encerrando discretamente uma trajetória que durou pouco mais de quatro anos no país.

A decisão surpreende porque o hatch havia acabado de passar por uma renovação visual no fim de 2025. A linha atualizada trouxe mudanças importantes no desenho externo, novos equipamentos de segurança e interior completamente reformulado. Mesmo assim, a versão reestilizada permaneceu menos de sete meses nas lojas brasileiras antes de ser retirada de circulação.

A reformulação deixou o elétrico com aparência mais moderna e identidade própria. O modelo ganhou luzes diurnas de LED posicionadas mais acima, novos para-choques, rodas inéditas de 14 polegadas e lanternas traseiras redesenhadas. Por dentro, o painel recebeu acabamento renovado, central multimídia flutuante de 10 polegadas e quadro de instrumentos digital configurável de 7 polegadas.


Apesar das melhorias, o conjunto mecânico permaneceu praticamente inalterado. O hatch seguiu equipado com motor elétrico de 65 cv e 11,5 kgfm de torque, números suficientes para levar o compacto aos 130 km/h e acelerar de 0 a 100 km/h em 14,6 segundos. A bateria de 26,8 kWh entregava autonomia próxima de 180 km segundo medições do Inmetro.

Mesmo sem desempenho esportivo, o Kwid E-Tech chamava atenção pela leveza. O modelo pesava apenas 977 quilos, algo raro entre elétricos compactos, o que ajudava na agilidade urbana. Ainda assim, sua estrutura denunciava a origem derivada de um carro a combustão, com módulos da bateria posicionados sob os bancos traseiros e túnel central elevado.

Outro ponto forte estava no pacote de equipamentos. O compacto oferecia seis airbags, frenagem autônoma de emergência, alerta de permanência em faixa, reconhecimento de placas de velocidade, sensor de fadiga e assistências de condução normalmente encontradas em veículos mais caros. Havia ainda câmera de ré, sensores de estacionamento e conectividade sem fio para celulares.

Mesmo reunindo equipamentos acima da média para a categoria, o Kwid E-Tech nunca conseguiu alcançar grande volume de vendas. O avanço acelerado das fabricantes chinesas mudou rapidamente o mercado brasileiro de elétricos. O BYD Dolphin Mini assumiu a liderança absoluta do segmento, enquanto o Geely EX2 passou a crescer com força dentro da própria rede Renault.

Os números ajudam a explicar a decisão. Entre janeiro e abril de 2026, o Kwid E-Tech registrou apenas 215 emplacamentos no Brasil. No mesmo período, o BYD Dolphin Mini ultrapassou 21 mil unidades vendidas, enquanto o Geely EX2 acumulou mais de 6 mil exemplares. O desempenho abaixo do esperado tornou inviável manter o pequeno elétrico importado da China.

A parceria entre Renault e Geely acelerou ainda mais essa mudança de estratégia. A fabricante chinesa adquiriu 26,4% da operação brasileira da marca francesa e passou a ocupar espaço importante dentro da rede nacional. O EX2, vendido em faixa próxima de preço, oferece cabine maior, proposta mais atual e demanda muito superior em várias regiões do país.

Com isso, a Renault já trabalha para iniciar a produção local do Geely EX2 na fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná. O modelo deve se tornar o segundo veículo da Geely montado no Brasil, logo após o utilitário esportivo híbrido EX5. Embora a produção ainda não tenha sido oficialmente confirmada, o movimento já é tratado como prioridade dentro da parceria.

A saída do Kwid E-Tech também altera o ranking dos elétricos mais baratos do Brasil. O compacto francês ocupava essa posição com preço próximo de R$ 100 mil. Sem ele, o posto passa para o BYD Dolphin Mini, vendido por cerca de R$ 120 mil, enquanto o Geely EX2 aparece logo acima, partindo de aproximadamente R$ 123 mil.

Agora, a Renault concentra esforços na renovação das versões a combustão do Kwid, que devem chegar em breve ao mercado brasileiro. O subcompacto terá visual inspirado no Dacia Spring, interior mais moderno, central multimídia maior e painel digital, mantendo o conhecido motor 1.0 de três cilindros com câmbio manual. Enquanto isso, o Kwid E-Tech encerra sua passagem pelo país como um dos pioneiros da eletrificação acessível, mas também como um projeto que não conseguiu acompanhar a velocidade das mudanças do mercado brasileiro.

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