A indústria automotiva mundial pode estar diante de uma de suas maiores transformações das últimas décadas. Depois de se consolidar como a principal montadora da China e alcançar a sexta posição no ranking global, a BYD anunciou uma meta que parecia improvável há poucos anos: superar a Toyota e se tornar a maior fabricante de veículos do planeta até o início da próxima década. O plano reflete o ritmo acelerado de crescimento da empresa e sua confiança no avanço dos carros eletrificados.
O anúncio foi feito por Wang Chuanfu, fundador e presidente da BYD, durante a assembleia anual de acionistas realizada em Shenzhen. Segundo o executivo, toda a estratégia da companhia está sendo desenhada para que a fabricante chinesa alcance a liderança mundial em apenas cinco anos. A declaração reforça a ambição da empresa em transformar sua expansão recente em domínio global.
Os números mostram que a BYD já deixou de ser apenas uma promessa. Em 2025, a montadora vendeu aproximadamente 4,6 milhões de veículos em todo o mundo, volume suficiente para ultrapassar marcas tradicionais como Ford e Honda. Com esse desempenho, a empresa se aproximou de grupos históricos da indústria, como General Motors e Volkswagen, embora ainda esteja distante da líder Toyota.
A montadora japonesa manteve a liderança global em 2025 ao comercializar 11,3 milhões de veículos. Considerando apenas a marca Toyota, sem Lexus e Daihatsu, foram cerca de 9,6 milhões de unidades. Na prática, isso significa que a BYD ainda precisa reduzir uma diferença superior a 6,7 milhões de veículos para alcançar o topo do mercado mundial.
Expansão global será decisiva
Para encurtar essa distância, a BYD aposta em uma combinação de crescimento internacional, aumento da produção e avanço tecnológico. A segunda geração da bateria Blade é apontada internamente como uma das principais ferramentas para sustentar a expansão da companhia, oferecendo maior eficiência, autonomia e redução de custos para seus futuros modelos.
A estratégia já começa a produzir resultados. Entre janeiro e maio deste ano, as exportações da fabricante cresceram 65%, impulsionadas principalmente pelo avanço em mercados como Brasil, Reino Unido e Austrália. Somente em maio, as vendas internacionais ultrapassaram 160 mil unidades, representando um salto de aproximadamente 80% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O objetivo para 2026 é ainda mais agressivo. A empresa pretende exportar 1,5 milhão de veículos, volume mais de 40% superior às 1,05 milhão de unidades embarcadas para mercados externos em 2025. Para atingir esse patamar, a montadora ampliará sua presença comercial em regiões consideradas estratégicas, como Europa, América Latina e Canadá.
Na Europa, a fabricante acelera investimentos para reduzir sua dependência das exportações chinesas. A fábrica de Szeged, na Hungria, é tratada como prioridade máxima e deve iniciar a produção de veículos ainda em 2026. Além disso, a companhia já procura uma segunda unidade industrial no continente para ampliar sua capacidade produtiva.
Investimentos em tecnologia e infraestrutura
A produção local tornou-se uma peça fundamental da estratégia da BYD. Com veículos fabricados dentro da União Europeia, a marca consegue escapar das tarifas adicionais impostas aos carros elétricos produzidos na China, tornando seus produtos mais competitivos diante das fabricantes europeias e asiáticas já estabelecidas na região.
Outro pilar do crescimento está na infraestrutura de recarga. A empresa anunciou investimentos de aproximadamente 1,8 bilhão de euros para instalar uma ampla rede de carregadores ultrarrápidos na Europa. Os chamados “flash chargers” prometem recuperar boa parte da bateria em cerca de cinco minutos, reduzindo uma das principais barreiras para a adoção de veículos elétricos.
Mesmo com o forte avanço global, a situação dentro da China exige atenção. O mercado local atravessa uma intensa guerra de preços, resultado da concorrência crescente entre fabricantes nacionais. Em maio, a BYD vendeu 207.372 veículos em seu país de origem, volume 29,2% inferior ao registrado no mesmo mês do ano anterior.
Essa desaceleração doméstica ajuda a explicar por que a expansão internacional se tornou tão importante para os planos da companhia. Hoje, a empresa busca compensar a menor velocidade de crescimento na China ampliando sua participação em mercados estrangeiros, especialmente aqueles que apresentam maior potencial para veículos eletrificados.
Obstáculos e desafios para a BYD chegar à liderança
Apesar do otimismo da direção da empresa, o caminho até a liderança mundial está longe de ser simples. Para alcançar a Toyota até 2030, a BYD precisará praticamente dobrar suas vendas globais em um intervalo relativamente curto, mantendo um ritmo próximo da adição de mais de um milhão de veículos por ano enquanto enfrenta concorrentes como Volkswagen, Stellantis, Hyundai-Kia, General Motors e Ford.
Além dos desafios comerciais, a montadora também enfrenta questões geopolíticas. Recentemente, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos incluiu a BYD em uma lista de empresas chinesas consideradas potenciais riscos à segurança nacional. Embora a medida não gere sanções automáticas, ela aumenta o escrutínio sobre a companhia e pode dificultar futuras parcerias com empresas americanas. A situação ganha ainda mais relevância porque a fabricante segue praticamente fora do mercado norte-americano, um dos maiores do mundo.
Mesmo diante desses obstáculos, a BYD acredita que sua combinação de tecnologia, escala produtiva e presença global será suficiente para desafiar a hegemonia da Toyota. No Brasil, por exemplo, a marca já ocupa a quinta posição entre as mais vendidas em 2026, com 77.785 emplacamentos e participação de 7,08% do mercado, demonstrando que seu avanço deixou de ser uma tendência para se tornar uma realidade concreta.
Marcas de carros mais vendidas do mundo em 2025
| Posição | Marca | Vendas |
|---|---|---|
| 1º | Toyota | 11,3 milhões |
| 2º | Volkswagen | 8,9 milhões |
| 3º | Hyundai-Kia | 7,3 milhões |
| 4º | General Motors | 6,2 milhões |
| 5º | Stellantis | 5,4 milhões |
| 6º | BYD | 4,6 milhões |
| 7º | Ford | 4,4 milhões |
| 8º | Geely | 4,1 milhões |
| 9º | Honda | 3,5 milhões |
| 10º | Nissan | 3,2 milhões |











