Conhecido durante anos como uma espécie de primo europeu do Renault Kwid E-Tech, o Dacia Spring está mudando de identidade. A segunda geração abandona a arquitetura ligada ao antigo compacto da Renault, cresce, ganha uma plataforma desenvolvida para veículos elétricos e deixa de ser produzida na China para sair da fábrica de Novo Mesto, na Eslovênia.
A transformação é importante porque não se resume ao desenho. A Dacia praticamente recomeçou o projeto, mas preservou justamente a característica responsável por tornar o Spring conhecido: ser um dos carros elétricos mais acessíveis da Europa. Segundo o próprio Renault Group, toda a nova gama terá preços abaixo de 20 mil euros, antes de incentivos governamentais.
Spring deixa para trás a base ligada ao Kwid
O antigo Spring utilizava uma arquitetura relacionada ao Kwid elétrico e era produzido na China. A nova geração adota a plataforma RGEV Small, desenvolvida dentro do Grupo Renault para pequenos veículos elétricos, e passa a ser fabricada em Novo Mesto, na Eslovênia. A mudança de plataforma e a produção europeia são confirmadas pelo próprio grupo.
Isso reduz bastante a ligação técnica com o Kwid. Em vez de partir do projeto utilizado pela geração anterior, o novo Spring utiliza uma arquitetura dedicada a pequenos veículos elétricos e compartilha soluções com o Renault Twingo E-Tech.
O compartilhamento de componentes dentro do Grupo Renault também ajuda a controlar os custos. Isso não transforma, porém, o Spring simplesmente em um Twingo com outra carroceria. A Dacia mantém uma proposta mais simples e voltada ao baixo custo.

Cresceu onde precisava, mas não quer virar carro de luxo
A nova plataforma permitiu corrigir uma característica evidente do antecessor: a carroceria estreita. O Spring agora mede aproximadamente 3,85 metros de comprimento, 1,74 m de largura, 1,52 m de altura e 2,49 m de entre-eixos. O porta-malas oferece 337 litros e pode chegar a 1.283 litros com os encostos traseiros rebatidos.
Apesar do crescimento, a Dacia não tentou transformar seu elétrico de entrada em um compacto sofisticado. O modelo continua homologado para quatro ocupantes e preserva soluções simples para controlar os custos.
Isso aparece principalmente na cabine. Plásticos rígidos continuam predominando e, nas versões superiores, há quadro de instrumentos digital de 7 polegadas e central multimídia de 10,1 polegadas. Na configuração de entrada, a tela central pode dar lugar a um suporte para smartphone. A própria Dacia destaca que o projeto interno prioriza funcionalidade e aproveitamento de espaço.
É uma escolha que ajuda a entender a filosofia do projeto: o investimento foi direcionado principalmente para arquitetura, espaço e conjunto elétrico, sem tentar esconder a proposta econômica com equipamentos que poderiam elevar o preço.

Bateria pequena também ajuda a controlar custos
O Spring utiliza apenas uma configuração mecânica. O motor dianteiro entrega 80 cv e 17,8 kgfm de torque, suficiente para levar o hatch de 0 a 100 km/h em 12,1 segundos. A velocidade máxima é limitada a 130 km/h.
A bateria LFP possui 27,5 kWh de capacidade útil, mas o tamanho reduzido precisa ser analisado considerando a proposta urbana do veículo. A autonomia oficial chega a 250 km pelo ciclo WLTP.
Uma bateria menor significa menos capacidade para viagens longas, mas também é coerente com um automóvel desenvolvido prioritariamente para deslocamentos urbanos e com forte preocupação em controlar custos.
A recarga rápida pode chegar a 50 kW em corrente contínua, levando a bateria de 15% a 80% em aproximadamente 28 minutos em uma estação compatível.
Produção europeia entra na equação do preço
Outra ruptura está no endereço da fábrica. O Spring deixa a produção chinesa e passa para Novo Mesto, na Eslovênia, em um momento no qual carros elétricos importados da China estão sujeitos a medidas comerciais adicionais na União Europeia.
A Comissão Europeia mantém tarifas compensatórias sobre veículos elétricos a bateria importados da China. As medidas definitivas foram impostas após uma investigação antissubsídios e variam conforme o fabricante.
Não há, porém, motivo para tratar as tarifas como a única explicação para a mudança do Spring. A produção europeia também faz parte da nova estratégia industrial da Dacia e acompanha a adoção de uma plataforma diferente.
Mesmo com todas as mudanças, preço continua central. A gama ficará abaixo de 20 mil euros antes de incentivos, segundo o Renault Group.
Com preço abaixo de 20 mil euros, o Spring entra justamente na disputa pelos elétricos mais acessíveis da Europa, segmento que vem recebendo novos concorrentes, inclusive de fabricantes chineses, como BYD e Geely.
Para o brasileiro, a nova geração chama atenção principalmente pela antiga relação com o Renault Kwid E-Tech.
Até o momento, não há anúncio oficial de comercialização do novo Spring no Brasil. Portanto, não há base para tratá-lo como futuro substituto do Kwid elétrico por aqui.
O que a segunda geração mostra é outro caminho: o Spring deixou para trás boa parte do parentesco técnico com o Kwid para ganhar plataforma e produção europeias. Mudou quase tudo, mas preservou justamente aquilo que a Dacia não quer perder — a proposta de colocar o preço antes do luxo.
