Roda de liga leve ou de aço: qual é melhor e o que acontece quando cai em um buraco?

Rodas de liga leve e de aço podem reagir de maneiras diferentes a buracos e impactos. Wiliam Monteiro, mecânico da WM Auto Mecânica, em Dom Expedito Lopes (PI), explica os sinais de roda empenada, quando uma trinca exige atenção, os riscos de reparos inadequados e os cuidados ao instalar rodas de outras medidas.

A roda chama atenção primeiro pelo visual, mas sua função está longe de ser apenas estética. Ela trabalha diretamente com pneu, suspensão e direção e precisa suportar cargas e impactos durante toda a utilização do veículo. Por isso, a escolha entre roda de liga leve e roda de aço envolve mais do que decidir qual deixa o carro mais bonito.

As diferenças também aparecem quando o veículo enfrenta a realidade das ruas: buracos, pedras e desníveis podem provocar desde um simples amassado até trincas e deformações que exigem a substituição da roda.

Para entender o que acontece na prática, o Falando de Carros ouviu Wiliam Monteiro, mecânico da WM Auto Mecânica, em Dom Expedito Lopes (PI).

Liga leve e aço não reagem da mesma maneira

As rodas de aço normalmente são fabricadas a partir de chapas conformadas, enquanto as chamadas rodas de liga leve utilizam ligas metálicas, geralmente à base de alumínio.

Uma das vantagens associadas à liga leve é a possibilidade de obter uma roda mais leve para determinada aplicação. Isso pode reduzir a chamada massa não suspensa, formada pelos componentes que acompanham mais diretamente o movimento das rodas.

Na prática, porém, não é correto afirmar que simplesmente trocar uma roda de aço por uma de liga garantirá melhora perceptível de consumo, aceleração ou frenagem. O resultado depende do peso efetivo dos dois conjuntos, dimensões, pneus e características do veículo.

Por isso, vantagens teóricas relacionadas ao menor peso não devem ser transformadas automaticamente em promessa de economia ou desempenho.

Roda de liga leve ou de aço: qual é melhor e o que acontece quando cai em um buraco?
Foto: Falando de carros

O que acontece quando a roda cai em um buraco?

É justamente nos impactos que algumas diferenças de comportamento ficam mais evidentes.

Segundo Wiliam Monteiro, os problemas que aparecem com frequência na WM Auto Mecânica incluem rodas empenadas, amassadas ou trincadas depois de impactos contra buracos, pedras e desníveis.

“A roda de aço normalmente tende a amassar ou entortar com o impacto. Dependendo da extensão do dano, ela pode ser recuperada. Já a roda de liga leve é mais rígida e pode empenar, trincar ou até quebrar”, explica.

Isso não significa que uma roda de aço seja sempre mais resistente ou que uma de liga seja necessariamente frágil. Construção, projeto, dimensões, carga e intensidade do impacto também interferem no resultado.

O próprio Wiliam faz essa ressalva: o material influencia a maneira como a roda reage a uma pancada forte, mas não permite determinar sozinho qual será danificada primeiro.

Uma pancada forte também pode justificar uma avaliação de outros componentes. Em nossa matéria sobre [sinais de amortecedores desgastados e problemas na suspensão], José Leal, da Mecânica Dois Irmãos, explica como buracos, calçamento e impactos podem afetar amortecedores e outras peças do conjunto.

Vibração pode indicar roda empenada

Nem sempre o motorista consegue enxergar o problema.

Um dos sintomas de roda empenada pode ser uma vibração que aparece principalmente em determinadas velocidades. Wiliam também chama atenção para instabilidade, dificuldade de balanceamento e perda recorrente de pressão do pneu.

Em algumas situações, é possível perceber visualmente uma irregularidade na borda. Mas a confirmação deve ser feita com equipamento adequado.

“Na oficina, colocamos a roda em um equipamento que permite verificar o alinhamento e a existência de deformações”, explica o mecânico.

Uma pancada forte também merece atenção mesmo quando aparentemente não deixou marcas. Segundo Wiliam, podem existir pequenas trincas ou deformações que não são facilmente percebidas externamente.

Se depois de atingir um buraco o carro começar a vibrar, puxar para um lado, apresentar ruídos ou perder pressão do pneu, a recomendação é fazer uma avaliação.

Roda trincada pode ser recuperada?

Essa é uma questão em que o diagnóstico profissional se torna especialmente importante.

Para Wiliam, nem toda roda de liga leve trincada deve ser reparada.

A decisão depende da localização, extensão e profundidade da trinca, além do histórico daquela roda. Danos próximos aos raios, centro ou pontos de fixação são especialmente preocupantes.

“Uma solda mal executada também pode enfraquecer o material ou esconder um problema estrutural”, alerta.

Aqui é importante fazer uma distinção na legislação. A Resolução Contran nº 913/2022 não estabelece uma proibição geral, para todos os automóveis, de utilizar qualquer roda que apresente quebra, trinca ou deformação. O artigo 5º aplica expressamente essa proibição a ciclomotores, motonetas, motocicletas e triciclos e ao eixo dianteiro de ônibus e micro-ônibus.

Portanto, essa norma não deve ser usada para afirmar que seu artigo 5º proíbe, de forma indistinta, uma roda trincada em qualquer automóvel de passeio.

Isso também não significa que seja seguro continuar circulando com uma roda estruturalmente danificada. Em um carro de passeio, uma trinca ou deformação significativa continua sendo motivo para avaliação profissional, especialmente diante do risco de perda de pressão do pneu ou comprometimento estrutural.

Quando é melhor substituir em vez de reparar?

Wiliam recomenda a substituição quando encontra trinca extensa, quebra, deformação acentuada ou danos em áreas estruturais, como raios, centro ou furos de fixação.

O histórico também importa.

Uma roda que já passou por vários reparos, não consegue manter o alinhamento ou provoca perda recorrente de pressão merece atenção adicional.

“O custo não deve ser o único critério, porque a roda participa diretamente da estabilidade do veículo”, afirma.

Essa avaliação evita que uma solução aparentemente mais barata mantenha no carro um componente sem condições adequadas de utilização.

Roda de liga leve e roda de aço lado a lado
Fonte: Imagem gerada por IA

Roda de liga leve melhora consumo e desempenho?

Existe fundamento técnico para relacionar uma roda mais leve à redução de massa não suspensa e rotacional. Isso pode interferir no trabalho da suspensão e na energia necessária para acelerar o conjunto.

O problema está em transformar esse princípio em promessa.

Uma roda de liga não é automaticamente mais leve que qualquer roda de aço. Se o motorista aumenta muito o diâmetro, a largura da roda ou utiliza outro pneu, o conjunto final pode inclusive ficar mais pesado.

Por isso, não há base para afirmar genericamente que colocar rodas de liga fará qualquer carro gastar menos combustível ou frear em uma distância significativamente menor.

Para quem dirige normalmente, estética, disponibilidade de medidas, custo e resistência às condições de utilização podem ser fatores mais perceptíveis do que eventuais diferenças de desempenho.

Posso trocar as rodas originais por rodas maiores?

Pode haver possibilidades de alteração, mas não basta verificar se a roda “cabe” no carro.

Wiliam afirma que um dos erros mais comuns é escolher o conjunto apenas pela aparência.

“Muitos observam somente o diâmetro e esquecem fatores como largura, offset, furação, capacidade de carga e medida correta do pneu”, diz.

Essas características podem alterar a posição do conjunto dentro da caixa de roda e provocar contato com carroceria ou componentes da suspensão.

A regulamentação de modificações veiculares também estabelece limites para essas alterações. A norma proíbe conjunto roda/pneu que ultrapasse os limites externos dos para-lamas ou que possa entrar em contato com carroceria, suspensão ou outras partes do veículo em condições de funcionamento.

Também existem limites para a variação do diâmetro externo do conjunto roda/pneu em relação ao original de fábrica, com critérios diferentes para pneus radiais e diagonais na regulamentação mais recente.

Isso significa que trocar, por exemplo, uma roda aro 15 por uma aro 17 não deve ser analisado apenas pelo diâmetro do aro. É necessário compatibilizar pneu e roda e verificar todas as demais especificações aplicáveis.

Modificação errada pode afetar outros componentes

Na experiência de Wiliam, largura, offset e outras medidas inadequadas podem fazer pneu ou roda rasparem na carroceria ou na suspensão.

O mecânico também alerta para possíveis alterações no esforço sobre rolamentos e componentes da suspensão, além de mudanças de conforto, dirigibilidade e desgaste dos pneus.

Outro cuidado apontado por Wiliam é evitar pneus de perfil muito baixo sem considerar as condições das ruas onde o carro será utilizado. Um conjunto escolhido principalmente pela aparência pode ficar menos adequado à realidade de vias com buracos e desníveis.

Por isso, antes da modificação, devem ser conferidas as especificações do veículo e do conjunto que será instalado.

Afinal, roda de liga leve é melhor que roda de aço?

Não existe uma vencedora para todos os motoristas.

Rodas de liga leve oferecem maior liberdade de desenho e podem proporcionar redução de peso dependendo do projeto. Para quem valoriza estética e determinadas características dinâmicas, podem ser uma escolha interessante.

Rodas de aço, por sua vez, geralmente têm construção mais simples e podem ser uma solução racional para quem prioriza custo e utilização em condições mais severas.

Mais importante que escolher apenas pelo material é utilizar uma roda compatível com o veículo, em boas condições estruturais e com pneu de especificação adequada.

E depois de uma pancada forte, a aparência não conta toda a história. Como explica Wiliam Monteiro, uma roda pode parecer normal e ainda apresentar uma deformação ou pequeno dano que só aparece durante a avaliação.

No fim, a melhor roda não é necessariamente a mais bonita, a maior ou a mais cara: é aquela adequada ao projeto do carro e às condições em que ele realmente será utilizado.

Aline Costa
SOBRE O AUTOR

Aline Costa

Estudante de Jornalismo pela Faculdade RSA, em Picos (PI), Aline Costa é cofundadora e redatora do Falando de Carros, onde atua na produção de conteúdos jornalísticos sobre o universo automotivo, incluindo notícias, comparativos, avaliações, lançamentos, mercado de veículos e informações para consumidores.Apaixonada por automóveis, Aline reúne experiência prática no setor, com trajetória ligada à venda de veículos e ao atendimento de clientes, conhecimento que contribui para uma abordagem mais próxima da realidade dos compradores. Sua vivência no mercado automotivo auxilia na análise de modelos, versões, preços, condições comerciais e tendências da indústria.Ao lado de Josean Santos, fundador do Falando de Carros, participa da administração e do desenvolvimento editorial do portal, buscando oferecer informações claras, responsáveis e relevantes para quem deseja conhecer melhor o mercado de carros no Brasil.Seu trabalho tem como objetivo unir conhecimento jornalístico e experiência prática, produzindo conteúdos baseados em informações confiáveis, com foco em ajudar os leitores a tomar decisões mais conscientes na escolha de um veículo.