A expansão dos veículos elétricos no Brasil depende de muito mais do que a chegada de novos modelos ao mercado. Para que a eletrificação avance de forma consistente, é necessário ampliar a infraestrutura de recarga e garantir que motoristas encontrem pontos de abastecimento com facilidade. É justamente nesse cenário que surge a parceria entre GAC, GreenV e 99, anunciada com a proposta de fortalecer a rede nacional de carregamento e preparar o país para o crescimento da frota eletrificada nos próximos anos.
O acordo reúne três empresas com atuações complementares dentro do ecossistema da mobilidade elétrica. A GAC entra como fornecedora da tecnologia e dos equipamentos, a GreenV assume os investimentos e a operação da infraestrutura, enquanto a 99 utilizará sua base de motoristas para ampliar a utilização da rede. A estratégia busca resolver um dos principais desafios do setor: criar uma estrutura de recarga capaz de acompanhar o aumento da demanda.
O projeto prevê a instalação de 242 pontos de recarga rápida até 2030. Os equipamentos serão distribuídos entre concessionárias da GAC espalhadas pelo país e hubs de carregamento localizados em regiões estratégicas, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. A iniciativa representa a primeira ação conjunta entre a montadora chinesa e a 99 desde a entrada da fabricante na Aliança pela Mobilidade Sustentável, coalizão formada por 31 empresas que atuam na promoção da mobilidade de baixo carbono no Brasil.
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Infraestrutura cresce, mas ainda está longe da demanda
O anúncio acontece em um momento de forte expansão do mercado de veículos eletrificados. Dados recentes da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que o Brasil já ultrapassou a marca de 25 mil estações públicas e semipúblicas de recarga. Apesar do avanço, especialistas apontam que a infraestrutura ainda cresce em ritmo inferior ao da frota eletrificada.
No início de 2026, estimativas do setor indicavam uma média próxima de 18,7 veículos plug-in para cada ponto de recarga disponível. Em outro levantamento da ABVE, o país registrava mais de 21 mil eletropostos para atender uma frota superior a 720 mil veículos eletrificados, resultando em uma relação de mais de 34 automóveis por carregador. Em mercados mais maduros, como Estados Unidos e países europeus, essa proporção gira em torno de 12 veículos por equipamento.
As diferenças regionais também evidenciam os desafios. São Paulo possui a maior frota eletrificada do país e a maior rede de recarga, mas ainda apresenta quase 38 veículos para cada carregador disponível. Já o Distrito Federal registra um dos cenários mais críticos, com aproximadamente 73 veículos por ponto de abastecimento elétrico.

Dentro da parceria, cada empresa terá funções bem definidas. A GAC ficará responsável pelo fornecimento dos carregadores rápidos, incluindo equipamentos de 60 kW e 120 kW. A GreenV atuará como investidora em parte dos projetos e será responsável pela operação da plataforma tecnológica e da infraestrutura. Já a 99 oferecerá condições especiais para que seus motoristas parceiros utilizem os pontos participantes da rede por meio do aplicativo.
O modelo foi desenhado para conectar oferta e demanda simultaneamente. Em vez de criar apenas uma rede de carregadores aguardando usuários, o projeto já nasce com potencial de utilização garantido por milhares de motoristas vinculados à plataforma de mobilidade. Isso melhora a ocupação dos equipamentos e ajuda a tornar mais viável o retorno financeiro dos investimentos realizados.
Outro pilar importante da iniciativa será a expansão da infraestrutura dentro da própria rede de concessionárias da GAC. A montadora possuía 52 lojas em operação em maio de 2026 e planeja alcançar 100 unidades até o fim do ano. Pelo projeto, todas as concessionárias deverão contar com pelo menos um carregador rápido, transformando as lojas em pontos de apoio para proprietários de veículos elétricos e ampliando a capilaridade da rede.
A GreenV também chega ao acordo respaldada por uma presença crescente no setor. A empresa já participou da implantação de mais de 15 mil pontos de recarga no Brasil e opera uma rede com mais de 600 carregadores ativos. Sua atuação envolve desde o fornecimento de hardware até sistemas de gestão energética e plataformas digitais para operação dos eletropostos.
Mais do que os 242 carregadores previstos até 2030, a parceria simboliza uma mudança na forma como a eletrificação vem sendo desenvolvida no Brasil. O processo deixa de depender exclusivamente das montadoras e passa a envolver operadores de infraestrutura, empresas de tecnologia, investidores e plataformas de mobilidade. A expectativa é que iniciativas desse tipo contribuam para reduzir um dos maiores gargalos do setor e aproximem o país da meta estimada por especialistas, que apontam a necessidade de algo entre 50 mil e 60 mil eletropostos para atingir níveis semelhantes aos observados nos mercados mais avançados do mundo.











