O motorista chega ao destino, desliga o carro e percebe que a ventoinha continua funcionando. A primeira impressão pode ser de que existe algum defeito. Em outra situação, acontece justamente o contrário: a temperatura começa a subir, mas o motorista não percebe o acionamento da ventoinha.
Os dois casos merecem atenção, mas nenhum deles permite concluir sozinho que o eletroventilador está quebrado.
Em muitos veículos, a ventoinha pode permanecer funcionando por algum tempo depois que o motor é desligado. O ar-condicionado também pode interferir no acionamento. Já quando existe realmente uma falha, a origem nem sempre está na própria ventoinha.
Sensor de temperatura, relés, fiação, conectores, gerenciamento eletrônico e até problemas no restante do sistema de arrefecimento estão entre os pontos que podem precisar de investigação.
Para entender como esse diagnóstico é realizado na prática, o Falando de Carros ouviu Wilian Monteiro, mecânico da oficina WM, em Dom Expedito Lopes, no Piauí.

Para que serve a ventoinha do radiador?
A ventoinha, também chamada de eletroventilador nos sistemas elétricos, ajuda a movimentar o ar através do conjunto do radiador quando é necessário aumentar a dissipação de calor.
Sua participação é particularmente importante com o veículo parado ou em baixa velocidade, quando existe menor fluxo natural de ar passando pela parte dianteira do carro.
Nos veículos modernos, o acionamento pode ser controlado eletronicamente a partir de diferentes informações do automóvel. Por isso, não existe uma temperatura universal na qual a ventoinha de todos os carros obrigatoriamente deve ligar ou desligar.
É normal a ventoinha continuar ligada depois de desligar o carro?
Dependendo do veículo e das condições de utilização, sim.
Wilian Monteiro explica que alguns carros mantêm a ventoinha funcionando temporariamente depois que o motor é desligado. O comportamento pode variar de acordo com o projeto do veículo, temperatura, clima, trânsito enfrentado, esforço realizado pelo motor e utilização do ar-condicionado.
Por esse motivo, estabelecer que a ventoinha obrigatoriamente precisa desligar depois de determinado número de minutos pode induzir o motorista ao erro.
“Não existe um limite único aplicável a todos os carros; o manual do proprietário deve ser a referência para cada modelo”, explica Wilian.
Essa orientação encontra respaldo em documentação oficial de fabricante. No manual de instruções do Volkswagen Polo, a Volkswagen informa que, após o motor ser desligado, o ventilador do radiador pode continuar funcionando durante alguns minutos mesmo com a ignição desligada ou com a chave fora da ignição. Segundo a fabricante, o ventilador depois se desliga automaticamente.
Portanto, ouvir a ventoinha funcionando logo após estacionar não significa, isoladamente, que exista uma avaria. É preciso considerar o comportamento previsto para aquele veículo.
O que merece investigação é uma mudança em relação ao funcionamento habitual, principalmente quando a ventoinha permanece acionada com o motor frio, demora muito mais que o normal para desligar ou chega a contribuir para a descarga da bateria.
Como saber se existe realmente um defeito?
Na oficina WM, a avaliação não começa pela substituição da ventoinha.
Wilian explica que uma das primeiras verificações é acompanhar pelo scanner a temperatura informada à central eletrônica e compará-la com as condições reais de funcionamento do motor.
Também é observado se o ar-condicionado está ligado.
Depois, a oficina verifica se a ventoinha desliga quando a temperatura diminui e procura identificar por que o gerenciamento eletrônico está mantendo seu funcionamento.
Entre os componentes que podem entrar na investigação estão sensor de temperatura, relés, chicote elétrico, conectores e módulo responsável pelo acionamento.
Mas a análise não termina na parte elétrica.

Ventoinha funcionando direto nem sempre significa sensor com defeito
Trocar imediatamente o sensor de temperatura porque a ventoinha permanece funcionando pode gerar gasto e não resolver o problema.
Segundo Wilian, falhas no sensor estão entre as possibilidades encontradas na oficina, assim como relé travado, problemas de fiação, conectores e gerenciamento eletrônico.
Quando a central não recebe uma informação de temperatura considerada confiável, o sistema pode adotar uma estratégia de proteção, dependendo do projeto do veículo.
Entretanto, também é possível que a ventoinha esteja trabalhando porque existe uma condição real de temperatura que precisa ser investigada.
Baixo nível do líquido de arrefecimento, presença de ar no sistema, problema na válvula termostática, radiador parcialmente obstruído ou dificuldade na circulação do líquido estão entre as situações que Wilian afirma verificar durante o diagnóstico.
E quando a ventoinha não liga?
Quando a temperatura começa a aumentar e a ventoinha não entra em funcionamento, também não se deve concluir imediatamente que seu motor elétrico queimou.
Wilian explica que primeiro verifica pelo scanner qual temperatura está sendo informada à central e se existe comando para o acionamento.
Depois entram na avaliação fusíveis, relés, chicote, conectores, aterramentos, alimentação elétrica e sensor de temperatura.
Dependendo do projeto, também pode existir controle de diferentes velocidades da ventoinha.
O restante do sistema de arrefecimento precisa ser analisado ao mesmo tempo. Nível e circulação do líquido, presença de ar, válvula termostática e bomba d’água são alguns dos pontos considerados pela oficina.
Somente depois dos testes é possível determinar se o problema está efetivamente no eletroventilador ou em outro componente.
Scanner ajuda a separar as possíveis causas
O scanner é uma das ferramentas utilizadas por Wilian no diagnóstico.
Com ele, o mecânico acompanha a temperatura informada ao gerenciamento eletrônico e verifica o comando de acionamento da ventoinha.
A avaliação é complementada por testes no circuito elétrico, incluindo alimentação, aterramento, conectores, relés e continuidade do chicote.
Quando o sistema permite, Wilian também realiza teste de atuação por meio do equipamento de diagnóstico.
O objetivo é descobrir se existe uma falha na própria ventoinha, no circuito elétrico, na informação recebida pelos módulos ou em outra parte do sistema.
“O diagnóstico precisa analisar o sistema completo, porque a ventoinha ligada por muito tempo ou sem funcionar pode ser apenas a consequência de outra falha”, explica Wilian.
Ar-condicionado pode ligar a ventoinha?
Sim, dependendo do projeto do veículo.
Wilian explica que, em muitos automóveis, o funcionamento do ar-condicionado pode provocar o acionamento da ventoinha mesmo quando o motorista considera que o motor ainda está frio.
Isso acontece porque o fluxo de ar também pode ser necessário no conjunto do condensador do sistema de climatização.
O comportamento varia conforme o automóvel. A ventoinha pode trabalhar continuamente, alternar ciclos ou operar em velocidades diferentes.
Por isso, ouvir a ventoinha logo depois de ligar o ar-condicionado não significa automaticamente que exista defeito.
Proprietário queria trocar a ventoinha, mas problema era outro
Um caso atendido por Wilian na oficina WM mostra por que substituir peças antes do diagnóstico pode ser um erro.
O mecânico relata já ter recebido veículos cujos proprietários acreditavam que precisariam trocar ventoinha, sensor ou relé.
Em um dos casos, porém, o diagnóstico apontou outro caminho.
Havia ar preso no sistema de arrefecimento e o nível do líquido estava abaixo do correto devido a um pequeno vazamento.
Com a circulação prejudicada, a temperatura demorava mais para baixar e a ventoinha permanecia acionada por mais tempo.
A oficina realizou teste de pressão, encontrou o vazamento, corrigiu o problema, fez a sangria do sistema e utilizou líquido com a especificação correta.
Depois do reparo, segundo Wilian, o acionamento voltou ao comportamento normal.
O exemplo mostra que a ventoinha pode estar simplesmente reagindo a uma condição provocada por outro defeito.
Quais sinais indicam que é hora de parar o carro?
A situação muda de importância quando aparecem sinais de superaquecimento.
Wilian destaca marcador de temperatura acima do normal, alerta ou mensagem de temperatura elevada no painel, perda de potência, cheiro forte de líquido de arrefecimento, vazamento e vapor saindo do compartimento do motor.
Nessas condições, continuar dirigindo pode agravar o problema.
O motorista deve procurar um lugar seguro e desligar o veículo.
Também existe um cuidado fundamental: não abrir a tampa do reservatório ou do radiador enquanto o sistema estiver quente. O líquido aquecido pode estar pressurizado e provocar queimaduras.
Se houver vapor, perda significativa de líquido, alerta de superaquecimento ou a temperatura voltar a aumentar, o veículo precisa ser avaliado antes de continuar sendo utilizado.
Trocar peças por tentativa pode sair caro
Outro erro encontrado por Wilian na oficina WM é começar a substituir componentes sem descobrir a causa.
Sensor, relé e até a própria ventoinha podem ser trocados sem necessidade se o problema estiver, por exemplo, no chicote, válvula termostática, bomba d’água, radiador ou em um vazamento.
Wilian também alerta contra adaptações elétricas feitas para obrigar a ventoinha a funcionar continuamente.
Ligações diretas e alterações no circuito podem esconder o defeito original e ainda criar novos problemas elétricos.
O motorista consegue fazer o diagnóstico em casa?
O proprietário pode observar o comportamento do veículo e reunir informações importantes para levar à oficina.
Vale verificar se o problema acontece somente com o ar-condicionado ligado, depois de trânsito intenso, após uma viagem ou também com o motor frio.
Indicador de temperatura, mensagens do painel e sinais externos de vazamento também fornecem informações importantes.
Isso é diferente de tentar fazer o diagnóstico elétrico em casa.
Pontes em relés, ligações diretas, alterações na fiação e substituição de componentes por tentativa não são recomendadas.
Afinal, quando a ventoinha ligada ou desligada é um problema?
A ventoinha continuar funcionando depois que o motorista desliga o veículo não significa automaticamente defeito. Dependendo do automóvel e das condições de uso, esse comportamento pode fazer parte da estratégia normal de controle térmico.
A própria Volkswagen confirma no manual do Polo que o ventilador do radiador pode continuar funcionando durante alguns minutos após o desligamento do motor e depois desligar automaticamente.
Da mesma maneira, perceber que a ventoinha não está girando em determinado momento não é suficiente para concluir que esteja quebrada.
O sinal de alerta aparece principalmente quando existe uma mudança persistente no comportamento habitual, funcionamento com o motor frio, descarga da bateria, temperatura acima do normal, alerta no painel, vazamento ou vapor.
A experiência de Wilian Monteiro, da oficina WM, reforça ainda outra questão: a ventoinha pode ser apenas a parte visível de um problema localizado em outro ponto do sistema de arrefecimento.
Antes de trocar sensor, relé ou o próprio eletroventilador, o caminho mais seguro é descobrir por que o sistema está apresentando aquele comportamento.
